Primeira infância – período decisivo na vida

João Augusto Figueiró

A idéia de que a primeira infância é período decisivo na formação da personalidade, do caráter e do modo de agir do adolescente e do adulto encontra sustentação em dados recolhidos nos últimos 100 anos de pesquisas científicas. De fato, os primeiros seis anos são fundamentais para a constituição da pessoa. Achados recentes da Neurociência oferecem evidências de que acontecimentos precoces de natureza física, emocional, social e cultural permanecem inscritos por toda vida nas conexões sinápticas, por meio de fenômenos de neuroplasticidade e biomoleculares. Assim, é possível, e muito mais eficiente, lançar os valores e fundamentos éticos da cidadania e da cultura de paz nessa primeira fase da vida, uma vez que a criança é dotada de capacidade absorvente, isto é, a criança é aquela que tudo recebe, julga com imaturidade, pouco recusa ou reage. Absorve e estrutura a personalidade do futuro adulto. É a criança que constrói seu conteúdo mental a partir do alimento social e assim acumula experiências que serão utilizadas para a construção de sua vida.

A primeira infância privada dos nutrientes afetivos fundamentais para o desenvolvimento saudável do ponto de vista psíquico, social e cultural resulta em adultos dentro de modelos corruptos, consumistas, predatórios, competitivos e de dominação que transmitimos às novas gerações.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) afirma que um dólar investido nessa faixa etária gera economia de sete dólares em assistência social, atendimento a doenças mentais, manutenção de sistemas prisionais, repetência e em evasão escolar e 15 dólares por pessoa em doenças que continuam a se manifestar na vida adulta, como depressões, suicídios, homicídios, abusos de drogas, sintomas físicos entre outros.

Interferir adequadamente na infância é um desafio, e os achados científicos recentes podem contribuir para a implantação de práticas e políticas, relativas à primeira infância, voltadas à promoção da cidadania por meio do fomento da saúde mental e social (salutogênese) e de formas de educação e cuidado da criança que favoreçam para que ela possa resolver, desde cedo, de forma pacífica e não-violenta os seus conflitos, superando as adversidades da vida, lidando de maneira respeitosa e generosa com o outro e com o ambiente e confrontando-se com a realidade de forma construtiva e inclusiva das diferenças (resiliência). De fato, os conceitos de salutogênese e resiliência podem ser relevantes para explicar porque os indivíduos conseguem triunfar mesmo em ambientes eminentemente hostis e adversos.

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João Augusto Figueiró é médico clínico, neurocientista e psicoterapeuta, com diversas pesquisas e publicações produzidas, tendo trabalhado por quase 40 anos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

Atuou na implantação das atividades da Universidade da Paz, da ONU, em São Paulo; foi conselheiro do Ministério da Cultura para o projeto de Cultura da Criança dentro do Plano Nacional de Cultura; é membro do Conselho Técnico Consultivo do Ministério da Saúde em projeto atualmente incorporado ao Plano Nacional de Saúde Integral da Criança; membro da Rede Nacional pela Primeira Infância e colaborou na elaboração do Plano Nacional pela Primeira Infância e do Guia para a elaboração de planos municipais pela Primeira Infância; presidente do Fórum Nacional pela Primeira Infância e membro do Conselho do Núcleo de Excelência pela Primeira Infância do Núcleo de Direitos da Universidade de São Paulo. É ainda integrante do Grupo Revisor da Convenção dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas; coordenador de projetos pela primeira infância em parceria com o Banco Mundial, BID, Conselho Empresarial da America Latina, Committe for Economic Development e com a Universidade de São Paulo, membro da delegação dos ‘Forums for Change – Brazil’ organizado pela Yale University,.

É empreendedor social, reconhecido pela organização internacional Ashoka Foundation.